Epifania

Hoje, 2º dia do ano de 2012, "acordei" de manhã e, como é hábito, liguei o PC para pôr música a tocar e dar a vista de olhos habitual nos e-mails. Não poderia imaginar a tão incrível notícia que chegaria até mim através deste meio de comunicação. Nada que tenha a ver comigo, mas foi uma surpresa tão grande, e representa tanta felicidade para as pessoas em questão, que me senti tão bem como se todos os meus problemas tivessem desaparecido. Entre lágrimas de entusiasmo, enviei uma sms de resposta (porque telefonar não seria a hora certa).

Também pela internet, recebi uma mensagem de um amigo que, mesmo estando a milhares de km de distância,  é muito habitual que se recorde de mim e da minha busca por emprego. Era sobre duas ofertas de trabalho, que ele partilhou comigo entusiasticamente. 

Instantes mais tarde, peguei na minha bicicleta e, como é habitual quando o tempo o permite, fui dar um passeiozinho até à praia. No caminho, encontrei uma amiga, senhora de sua idade, mãe de uma Irmã Escuta, que merece o meu carinho desde os tempos de escola mas com quem raramente estou. Parei, cumprimentei-a, desejei-lhe um bom ano e ela questionou-me, entusiasmada por me rever, se queria ir tomar um café. Aceitei de imediato, e lá fomos, pondo a conversa em dia.

Estava a almoçar quando chegaram vários amigos para um café. À medida que iam entrando, e apesar do hábito que temos em passar muito tempo juntos, ninguém dispensa os muitos cumprimentos. Entram mais amigos, que não vejo tantas vezes, e o entusiasmo deles é sempre contagiante.

Pego de novo na bicicleta. Sigo pelas matas, o passeio é maior e mais agradável e mais natural (quase sempre posso ver águias por ali...). É habitual encontrar muita gente a caminhar por ali, hoje não foi excepção. Como sigo com os fones nos ouvidos, sempre tenho o cuidado de baixar um para cumprimentar as pessoas com quem me cruzo. E assim o fiz, quando me cruzei com duas senhoras que caminhavam. Ao verem a minha atenção, desejaram-me um bom ano com tanto entusiasmo que parecia que me conheciam desde sempre.

Dez da noite e eis que um amigo me telefona porque alguém recolheu uma ave de rapina. Não é muito comum serem detectados animais por aqui mas já se tornou um hábito eu ser contactada quando isso acontece. Não hesitei e lá fui, entusiasmada com o facto de poder ajudar, recolher e encaminhar o animal para recuperação.

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Já decidi, este ano vou voltar a escrever um PPV (mais informações aqui). Preciso de colocar as ideias em ordem, estabelecer e vincar prioridades, controlar a execução de tarefas e a concretização de objectivos. Tenho usado (porque não é perdido) algum tempo para pensar nisto, apesar de ter a plena noção de que só quando me sentar a escrevê-lo é que efectivamente tudo passará de ideias a ideais. Mas, bem, foi durante o dia de hoje, e com tudo o que foi sucedendo, que eu concluí efectivamente o que preciso de recuperar e de gerir, em todas as "fatias" da minha vida. Para os leitores mais atentos, existem duas palavras ou conceitos que foram sendo repetidos nas descrições anteriores...

(Vou dar-vos uns instantes para as tentarem recordar ou, pronto, fazer batota e ir lá procurá-los...)

Já verificaram quais são? Pois bem: hábito e entusiasmo. 

Hábito, rotina, comum, banal, é algo que tenho tido bastante nos últimos tempos, direi mesmo em excesso. Sou muito sincera: eu preciso de alguma rotina, e de horários, de organização... mas quando se cai em exagero, ainda para mais em hábitos pouco produtivos (que não será o caso dos referidos, foi só um modo de marcar a ideia), perde-se o espaço para o impulso, para a surpresa, para a loucura, para o imprevisto, para a espontaneidade, para a ousadia, para o entusiasmo... 

E é aqui que entra aquilo que creio que perdi... o entusiasmo, a energia, a euforia. Aquela força que nos faz mover para e por algo, ou alguém, ou algum lado, que é contagiante e radiante, que faz ver tudo por olhos cor-de-rosa (quando a vontade diz que deveriam ser cinzentos), que nos faz sentir bem e de bem com a vida, interessantes e interessados. Não sei bem onde deixei o meu entusiasmo... creio que foi algures quando percebi que havia falhado em todas as porções da minha vida (mais ou menos intensamente, com maior ou menor quota de culpa...),  ou que a vida me havia falhado, e que se tornou praticamente hipócrita andar com um sorriso nos lábios.

Mas eis que, em dias como hoje, se torna possível respirar entusiasmo - meu ou alheio - com alguma facilidade. E que é permitido fugir da rotina por pequenos imprevistos ou pequenas decisões espontâneas ou actos impulsivos. E que se sente que é deveras cansativo andar de mal com a vida, porque a única coisa que vence a vontade da Vida é o Sonho (já dizia o poeta), e esse só existe quando se lhe permite brotar e crescer no equilíbrio perfeito entre o que se tem que fazer (o hábito) e o modo como o fazemos (o entusiasmo).

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