...Vazio...

"- Está tudo errado! - diz ela, com os lábios banhados pelas lágrimas que lhe escorrem pelo rosto... 
- Está tudo errado...- repete, com um tom mais esmorecido, em jeito de desabafo e de completa incapacidade... 
Crê que o dia, a noite, aquela noite, deveria ser de celebração mas não lhe apetece estar ali... Porque não tem porque celebrar. E o mundo gira em torno de si, e as pessoas giram em torno de si, e o movimento e as luzes, tudo gira, e... bem, o mundo gira, mas ali, naquele momento, poderia girar sem si.
Não consegue estar, não sabe ser. Sente o peito apertado e, sabendo-o bem, não sabe porquê... Porque as razões não lhe parecem justificações. Volta, e diz: 
- São só problemas por todo o lado, nada está certo...  
Ainda assim, não sente que mereçam uma dor tão apertada, nem as lágrimas, nem a vontade infinita de querer desaparecer. Ou um desejo incessante de apenas conseguir respirar... Mais uma vez, desabafa: 
- Eu só quero respirar...
E é numa noite completamente improvável que tudo se torna claro o suficiente para ela perceber que tudo está errado, mas em que tudo se confunde para que não veja o que é o "tudo" exactamente...

Compreende, tempos mais tarde, quando a frase "Está tudo errado" ecoa em si em cada momento mais reflexivo... Tem negligenciado os seus desejos, as suas vontades, as suas necessidades, o seu Presente e o seu Futuro. Porque racionaliza e não sabe ser egoísta o suficiente... E há algo que a perturba e lhe turva a percepção, ao ponto de vacilar, como nada alguma vez antes o havia feito, e que a faz negligenciar também a sua própria essência... 
Confirma que, sim, efectivamente está tudo errado. 
Mas ela é a única culpada..."

(...uma história na noite da vida de alguém...)

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