"Na verdade, creio que a perspectiva com que observamos a terra que é nossa varia sempre com o que estamos a viver... (...) há momentos em que saboreio tudo como se fosse a 1ª vez, os locais, as pessoas... Há outros em que me pergunto o que faço ali, em que não me identifico com lugar algum, nem com as pessoas, muitas delas que conheço desde sempre...
Creio que só somos capazes de reconhecer o devido valor e a devida beleza na nossa terra e nas nossas gentes quando estamos realmente longe e tudo aquilo se torna como que uma miragem, e quando temos vivências tão boas que queremos partilhar com quem nos conhece melhor, e quando o nosso entusiasmo se reflecte nos outros... (...) Mas depois de uns tempos lá, tornou-se complicado usufruir e acabei por cair na mera rotina... (...) o que também acaba eventualmente por acontecer nos sítios onde vou, como se ficassem desgastados de novidade - ou então eu perdesse a energia para a descobrir...
(...) Percebi que o meu desejo de parar era uma defesa preguiçosa ou um reflexo de algum cansaço, mas não era isso que eu precisava nem me iria fazer sentir realizada..
(...) cada vez que regresso a casa tenho surpresas contraditórias: pessoas que me demonstram que nada muda, ou até que somos mais amigas!, e outras que me desiludem e que quebram aos poucos os fortes laços que nos ligavam... Sendo que são mais as últimas... Mas talvez a minha escala seja diferente porque já conheci tanta gente diferente com quem vivi tantos momentos de tanta intensidade que me tornei exigente e espero sempre que as pessoas se dêem na mesma medida que eu me dou...
(...) o problema de ter uma veia nómada é que nada é efectivo, nenhuma ideia é concreta, até se estar mesmo lá...
(...) Demonstra o meu caminhar entre locais... o meu fascínio e a minha visão atenta sobre o mundo e o facto de me deixar surpreender pelas coisas (que à maioria nada dizem)... a minha ânsia pela descoberta que me faz andar de um lado para outro e não pertencer a lado algum (mas será que isso é bom...? Há dias em que dói...)... o eterno questionar... o eterno sentimento incompleto...
É talvez o 1º dia de Outono verdadeiro, com uma brisa gelada que corta mas um sol que timidamente aquece, e eu adoro o Outono, mesmo. (...) passar a palavras escritas algumas das que ecoavam nas minhas reflexões matinais de Outono...
Obrigada."
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